sábado, 24 de agosto de 2013

A aventura de Vítor Pereira nas Arábias

Bicampeão português transformou-se num fenómeno de popularidade na Arábia Saudita, mas para além da ambição do projeto desportivo está um percurso cheio de peripécias

O Al-Ahli recebe o FC Seul para os quartos de final da Liga dos Campeões asiática, mas não pode jogar no seu estádio, que está em obras para atingir uma capacidade de 80 mil pessoas. O encontro é então transferido para Meca, a menos de 90 quilómetros de distância, mas Vítor Pereira não consegue marcar hotel na cidade que só hospeda muçulmanos. Do mal o menos, a distância até nem assusta, mas o autocarro não pode circular nas principais estradas, também elas alvo de filtro religioso. Vítor Pereira, bicampeão português, é treinador, mas quem lhe escolhe o estádio onde joga, os relvados onde treina, os hotéis onde estagia ou até os percursos que deve fazer para não perder por falta de comparência?

Quarta-feira, contra o campeão coreano, o Al-Ahli não conseguiu ganhar, mas o caminho até à estreia fez o espinhense sentir-se um vencedor. Por aquilo que viu a equipa jogar e pela imensidão de variáveis que controlou até ao encontro. "Falhámos muitos golos. Tivemos uma bola no poste, um chapéu do Mossoró ao guarda-redes, que o defesa tirou na linha, um remate do nosso avançado para fora a um palmo da baliza... Trememos nos primeiros minutos, acusámos a pressão, mas depois fomos para cima deles, acabámos com mais de 20 remates contra apenas oito do Seul e a bola foi sempre nossa." Quando O JOGO lhe ligou, Vítor Pereira começou logo a desbobinar sobre futebol. É-lhe difícil falar sobre outra coisa e nota-se o entusiasmo de quem não está na Arábia para desfrutar de uma experência exótica. O técnico trabalha com a mesma exigência que impunha no FC Porto, mas com funções alargadas. 

"Isto não é o FC Porto. Eu quero que isto seja o mais profissional possível e estamos a ir nesse sentido, mas para já passa tudo por mim. Questões relacionadas com o estádio, o hotel e o campo de treinos são todas comigo, apesar de a estrutura ser prestável e fazer tudo o que eu peço. A questão é que não estão habituados a fazer por eles..."

Ainda a viver num hotel, Vítor Pereira tem uma agenda sobrecarregada, como se percebe, mas nem com muito tempo livre poderia fazer vida social. "Vocês não imaginam o que isto é, esta gente é doida por futebol. Não consigo sair do hotel", conta, antes de relatar a tentativa, frustrada, de passar despercebido. "Fui uma vez ao shopping com o Victor Simões [avançado brasileiro do Al-Ahli] e não consegui dar um passo sequer. As pessoas tiram-me fotos, dão-me beijos, eles aqui dão muitos beijos na cabeça. Fui engolido, mal me viram vieram a correr para mim. Só me diziam 'I love you, I love you'. É o fim do mundo", relata, sem evitar o contraste com os dois anos em que, apesar dos títulos, nunca se livrou da pressão dos portistas.

Vítor Pereira vive uma aventura nas Arábias, mas nem tem aprecia o folclore: "Eu vim para aqui para trabalhar e para dar títulos a este clube".

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